Ah Porto Alegre!
Ah! Porto Alegre, como é bom estar contigo!
Andar por tuas ruas, subir as ladeiras, ouvir tua voz.
Ah! Porto Alegre! Conheço-te de menino,
Conheço-te pelas ondas, que pareciam tão amigas...
E por elas fiquei íntimo de ti,
Ah! Capital do pago...
A Rua dos Andradas, que é para todos, Rua da Praia.
Vigário José Inácio, José Montauri, Avenida Farrapos,
E a Siqueira Campos, “em frente à Paineira”...
Como andou por aí faceira,
Em tantas manhãs meridionais,
Levada pelo minuano,
A alma daquele guri missioneiro.
Que fazendo o fogo para o mate,
Zanzava pela Borges de Medeiros,
Sem saber, tanto desmando,
Sem saber da homenagem,
Que soa agora uma pilhagem,
A relembrar o maior chimango.
E o pôr do sol no Guaíba, cantado e ilustrado,
Que não pode ser contemplado,
Lá da ponte,
Só o eco de um reponte,
O cartão postal virou um ermo,
Um triste descampado...
Mas posso ver o crepúsculo
No anfiteatro do Por do Sol,
No campo aberto, na Praia de Belas,
O que conforta este coração,
Apaixonado outrora pela Volta do Mercado,
Pela Praça da Alfândega,
Hoje tomada pela pândega,
Dos expulsos dos verdes campos,
O Cafarnaum das tristes metrópoles tropicais.
Ah! Porto Alegre, tu ainda me seduz ...
Andar entre o Guaíba e o Parque,
(Eternamente da Harmonia...)
Que simplicidade traduz,
E ver em grande altura,
O antigo falo do Gasômetro,
Que engravida de cultura
Os antigos pavilhões da Força e Luz.
Ah! Porto Alegre, que contrastes,
Dos bairros, Menino Deus, Bom Fim, Passo da Areia,
E o centro, onde a vida é uma peleia,
Do vendedor que grita,
“Que não arrisca não petisca,
Sorte grande não belisca”,
Fazendo eco na esquina,
Não sabe da sorte malina,
Dos descamisados do pago...
Aos doutores eu indago,
Que mal vos fez Porto Alegre?
Que hoje tomba combalida.
Que de alegre virou triste,
No estuário, água poluída,
No cenário, arrastando a lida
A gente pobre que persiste...
Eu questiono dedo em riste!
Eu pergunto: isso é vida?
Ah! Porto Alegre,
Quero numa mágica de teatino,
Voltar a ser o menino,
Repontar aquela tropilha...
Quero ficar co’a lembrança,
Da imaginação da criança,
Pintada pelo que ouvia,
De Grenal, da Azenha,
Do Parque Farroupilha,
Que o piá, lá na coxilha,
Sonhava que existia.
E ansiava conhecer e amar,
Sem pensar que perderia,
Sem saber que sofreria,
Sem sonhar que ia chorar.
Março/2012.
Frio, caqui, sabiá
Um dia frio, um caqui, um sabiá...
Levaram-me pra longe no tempo,
E só no meu pensamento,
Voei bem longe a um lugar.
E a saudade me traçou um esboço,
E então eu voltei a ser moço,
E ser moço é sonhar.
Frio, caqui, sabiá...
Juventude que longe está...
E o passado a me fustigar,
No belo canto interrompido,
Do passarinho abatido,
Como um amor, por ali vivido,
Que nasceu e morreu por lá.
Frio, caqui, sabiá...
Lembranças daquela flor,
Lamentos daquela dor,
Só ouço um canto por cá.
O amor foi sublimado,
Da flor, o ramo murchado,
Valeu o aprendizado.
Que sopre o vento bem frio!
Que madure o fruto no estio!
Que renasçam os sabiás!
Na vida nada é em vão,
E nem as dores o são.
Mas, e do amor, o que será?
Só frio, caqui, sabiá...
De saudades da dona Heda
Lembranças da minha mãe que eu enfeixo,
Uma palavra, alguma frase ou um gesto...
Me passando o pente, a mão no meu queixo,
Ou dando-me um pito pra me fazer honesto.
Lembro-a séria fazendo a minha mala,
Dobrando a roupa, alguma fruta, o sapato,
E eu ali bem tristonho, já quase sem fala,
Estava deixando o lar para ir ao internato.
Rolavam tantas lágrimas nas despedidas,
E foram muitas no correr das nossas vidas,
Que a saudades dela foi uma constância.
Trocamos muitas cartas, que sempre releio,
Querendo ainda me deitar no seu seio,
E sentir seu calor dos tempos de infância.
Maio de 2019.
Todos dias quando despertava,
Nada mais então me importava,
O ônibus, a comida ordinária...
A minha vida pobre e solitária,
Naquele burgo frio e sem alegrias,
Como um sol então tu me surgias.
Ao acordar eu tinha à minha espera,
Aquela doce menina que era,
O meu sonho, tudo que eu tinha.
E ainda que ela não fosse minha,
Bastava-me a existência dela.
Alguém me esperava, e era bela...
E num ponto qualquer do caminho,
La vinha com um doce sorrisinho,
Linda, explosiva, alegre, provocante!
E eu, tímido poeta, verde, vacilante.
Pensava, mirando seus olhos castanhos...
Nossos mundos, desiguais tamanhos.
E passou como uma chuva de verão,
Sem raios, sem trovoada ou furação,
Foi-se de mim como voa um passarinho...
Nem sofri a perda, pois, se eu nada tive.
Mas, a doce recordação, esta ainda vive,
Fez parte de mim e do meu caminho...
Janeiro 2018.
Ai que saudades do Porto...
Anos oitenta, burgo pequeno,
Mas a vida ali era grande.
Dias longos, tempo pra tudo,
Para as lutas e para o amor,
E para se viver com todo o vigor!
E quando o sol ia se pondo,
Fugindo atrás das matas no Arinos,
Tocassem ou não os sinos,
Na Trimangal Caetano cantava Sampa,
Umas cervejas, os amigos, as prosas,
Conversas, controvérsias calorosas,
Entre figuras de variada estampa.
E se havia disputas no futebol,
O ginásio fervia após o arrebol,
Era uma guerra, declarada ou não!
Pra tudo acabar na lanchonete,
Vencedores e vencidos de cada escrete,
Se congraçavam ardentes de paixão.
Aí que saudades do Porto...
Dos bailes animados que dançamos,
No ginásio e também no Crep,
Carnavais simples, diferentes,
Não tinha televisão nem internet,
E a vida era boa e se vivia de montão!
Naquele tempo tudo era simples,
A política, a sociedade organizada,
Os poderes controlados pelo povo.
Normal os patrões e a peonada,
Na mesma festa ou na mesma dor,
Estratificação social? Faz favor!
Que disso ali não tinha nada.
Claro que houve coisa ruins também,
Das quais eu me olvido, porém,
Pois a dor faz parte, é necessária...
É o que defendo nesta plegária.
Mas para que guardar os infortúnios?
Deixemos as águas do Arinos levar
Lembremos do luar, não dos interlúnios.
Como esquecer Chalana, Halley, Trimangal,
Pontos de encontro e festas sem igual,
Naqueles doces tempos imemoriais,
Só quem viveu e sentiu tudo aquilo,
E de muitos casos não se fez sigilo,
E o Scoolacho guardou nos seus anais.
Aí que saudades do Porto...
E de tudo aquilo que por lá vivi,
Tanta coisa que não cabe aqui,
Nesse apressado versejar.
E quando me ardo de saudade,
Juro que me dá uma vontade,
De largar tudo e pra lá voltar!
29 e 30 de abril de 2022.
O campo era branco de geada,
Manhã fria de inverno,
E eu ia da casa ao galpãozinho,
Tiritando sozinho,
Soprar a brasa num guarda-fogo de angico,
Para o mate da madrugada.
O raio que principiava aquela lida,
A vigilante brasa que varava a noite,
Era como um fogo simbólico,
Para mim era um apoite,
Daquele momento bucólico,
Para sequência da vida.
A chaleira preta chiava sobre a brasa,
E eu já ouvia a buia lá na casa,
Era meu pai que vinha pra perto do fogo,
E a cuia recebia o afago,
A bomba sentia o beijo amargo,
E, silentes como somos nas manhãs,
Bastava um olhar de cumplicidade,
Do pai parceiro,
Na simplicidade daquele viver campeiro.
E hoje, tudo longe e tudo perto,
Aqui e no outro lado da vida,
Meu pai, a lo largo e tão cerquita,
Na vigília está por certo,
Pois meu coração palpita,
Galopando a toda brida.
E eu lhe digo, por arremate,
Me espere, ceve um mate,
Que qualquer dia eu chego lá.
Sopro a brasa do passado,
Que não passa, apeado,
Da saudade de ser piá.
Cuiabá, 12.04.2013
Que saudades das alegres tardes,
Quando ele chegava fazendo alardes,
Vindo ao trote do fogoso pingo baio,
Apeava rindo, nos olhando de soslaio.
De botas, bombacha e camisa branca,
Na face corada, aquela risada franca,
Das algibeiras ele tirava os caramelos,
Que jamais se esquecia de trazê-los.
Era o nosso pai, e nós um piazedo,
Já saudoso, pois ele saíra muito cedo,
Pra Guarani, ao comércio, era costume.
A gente esperava e ele sempre trazia,
Algum agrado para nos dar uma alegria,
Pois das nossas vidas, ele era o lume.
14/02/2020